Meu sol, nossa luz
Sobre ser apoio antes de ser pessoa
Em 1994, os psicólogos Elaine Hatfield, John Cacioppo e Richard Rapson publicaram Emotional Contagion, obra que consolidou um campo de estudo até então disperso, o da transmissão automática de estados emocionais entre indivíduos. A tese central é simples e desconfortável: Emoções não permanecem contidas dentro de quem as sente — elas se propagam.
Segundo os autores, esse contágio ocorre por meio de um processo de imitação inconsciente e rápida de expressões faciais, posturas corporais e padrões vocais. O corpo observa, replica e, só depois, interpreta. Não se trata de empatia deliberada, mas de um mecanismo primário de sincronização afetiva.
Estudos posteriores em neurociência social aprofundaram essa constatação. Pesquisas com eletromiografia facial e ressonância magnética funcional demonstraram que músculos ligados à expressão emocional são ativados em milissegundos ao observar o rosto de outra pessoa. Antes que qualquer reflexão aconteça, o sistema nervoso já entrou em sintonia.
Esse mecanismo não surge na vida adulta, mas se forma na infância. O pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott já afirmava, nos anos 1950, que o bebê não existe isoladamente, mas sempre em relação a um ambiente cuidador. A regulação emocional inicial não é interna; é emprestada. A criança aprende o que sentir a partir de quem a cerca.
É nesse ponto que a noção de “energia” deixa de ser meramente metafísica ou um conceito holístico. Para a sociologia, o que chamamos de energia pode corresponder, na prática, à sua posição dentro de um campo relacional de afetos. Alguns atravessam esse campo como presença neutra. Outros aprendem, muito cedo, a sustentá-lo.
A criança que não dá trabalho
Na psicologia do desenvolvimento, há um padrão recorrente em contextos familiares emocionalmente instáveis: a criança que aprende a não demandar, ou seja, a não ser mais um problema em um núcleo já fragilizado. Ela percebe o clima da casa, ajusta o comportamento e antecipa tensões. Em vez de externalizar necessidades, internaliza expectativas.
Alice Miller, em O Drama da Criança Bem-Dotada (1979), descreve esse processo como uma adaptação precoce ao desejo parental. A criança desenvolve uma sensibilidade extrema ao outro porque entende, ainda sem palavras, que o vínculo depende disso. Ela é elogiada por ser madura, forte, compreensiva. Aprende que amor vem acompanhado de funcionalidade.
Em abordagens clínicas contemporâneas, esse padrão se aproxima do que passou a ser chamado, fora do jargão técnico, de golden child. Não necessariamente se trata de uma criança privilegiada, mas sim uma que ocupa o lugar simbólico de equilíbrio emocional da família. Ela sustenta o ambiente, regula conflitos, mantém o sistema funcionando e recebe reforços positivos e carregados de pressão comportamental para manter a harmonia da casa.
O problema é que esse aprendizado não se dissolve com o tempo. Ele se cristaliza. O que começa como adaptação vira identidade e a vontade de agradar e suprir expectativas deixa de ser apenas uma resposta aos pais e passa a ser um modo de existir no mundo.
Na vida adulta, essas pessoas costumam ser descritas como empáticas, sensíveis, carismáticas. São aquelas que percebem nuances, acolhem silêncios, sabem quando intervir e quando recuar. Mas essa habilidade raramente vem sem custo.
O sociólogo francês Alain Ehrenberg, em La Fatigue d’être soi (1998), analisa a exaustão psíquica contemporânea como resultado da exigência constante de autorregulação. Não se trata mais de obedecer regras externas, mas de sustentar internamente uma versão funcional de si. O sujeito cansa não por fazer demais, mas por ser demais.
Para quem aprendeu cedo a sustentar o emocional alheio, esse cansaço ganha contornos específicos. Há uma dificuldade profunda em existir sem utilidade. Descansar provoca culpa. Reclamar soa como falha moral. Não cuidar do outro parece abandono.
A energia que organiza o ambiente, aos poucos, consome quem a emite.
Emotional labor: a vigília de quem está sempre atento às emoções dos outros
O conceito de emotional labor, formulado pela socióloga Arlie Hochschild em The Managed Heart (1983), descreve o esforço de gerenciar emoções para cumprir expectativas sociais. Embora o termo tenha surgido no contexto do trabalho, sua lógica ultrapassa esse campo.
Em relações pessoais, emotional labor aparece quando alguém sente que precisa manter o clima, amortecer conflitos, traduzir sentimentos alheios, silenciar os próprios. Não por imposição explícita, mas por hábito emocional. O cuidado deixa de ser escolha e vira reflexo.
Esse tipo de adaptação cria vínculos assimétricos. Um sente. O outro administra. Um expressa. O outro sustenta. Com o tempo, a pessoa que sustenta perde acesso às próprias necessidades, porque aprendeu que elas são secundárias.
A música Mirrorball, lançada por Taylor Swift em 2020 no álbum Folklore, oferece uma imagem precisa desse estado. Ao se descrever como um globo refletor, a narradora fala de alguém que brilha refletindo o ambiente, mudando conforme o olhar que a observa, ajustando-se para não perder a atenção do espectador.
I want you to know
I’m a mirrorball
I can change everything about me to fit in
Essa imagem dialoga diretamente com a formação subjetiva de quem aprendeu que permanecer é se adaptar. O afeto se organiza em torno da pergunta: “O que esperam de mim agora?”. A identidade vira superfície reflexiva, e o preço disso é o sacrifício da naturalidade e o reforço de que para ser amado é preciso merecer ou conquistar o outro ao prever e se encaixar no comportamento que mais lhe agrada, sem criar brechas para frustrações ou rejeição.
I’m still a believer, but I don’t know why
I’ve never been a natural, all I do is try, try, try
I’m still on that trapeze
I’m still trying everything to keep you looking at me
O custo de sustentar a luz
Ser alguém que reorganiza o ambiente pode parecer virtude, mas frequentemente esconde uma dificuldade fundamental: a de ocupar espaço sem compensar. Essas pessoas sabem acolher, mas não pedir. Sabem ajustar, mas não interromper. Sabem sustentar, mas não cair.
Quando o afeto depende da funcionalidade de um indivíduo perante o outro e se torna uma moeda de troca, recebida apenas quando se é útil, o amor deixa de ser algo que nasce naturalmente e passa a operar como mecanismo de controle. O vínculo deixa de existir pelo encontro e passa a existir pela manutenção.
Nesse cenário, amar não é ser, mas servir. A presença só é validada quando contribui para o equilíbrio do todo. Qualquer falha, cansaço ou desalinhamento é lido como quebra de contrato. O sujeito aprende, então, que descansar é arriscado, que reclamar custa caro, que existir fora da função ameaça o vínculo.
Em contrapartida, quando alguém assume para si a responsabilidade de nutrir a energia do ambiente, mantê-lo agradável e evitar desconfortos, o custo recai silenciosamente sobre o próprio corpo psíquico. Aos poucos, o próprio sentir é colocado em segundo plano, e o bem-estar individual passa a ser negociável diante da estabilidade coletiva.
Esse tipo de adaptação prolongada não gera apenas cansaço, mas produz apagamento. O sujeito perde referência do que sente porque se acostumou a sentir depois dos outros. A escuta se torna externa, e a vida interna vira ruído de fundo.
Tornar obrigação aquilo que nasceu como traço espontâneo, como o carisma ou a facilidade de se relacionar, é um dos caminhos mais rápidos para extinguir essa fagulha e transformar o que mais “brilha” numa personalidade no seu próprio algoz. Ser capaz de apenas existir, de maneira autêntica e completa, sem se preocupar em cumprir uma função ou ter utilidade, é preciso.

Primeiramente, feliz ano novo! Que seja um ano gentil para todos nós. Em 2026, a Viveiro volta ao ritmo com uma edição inédita toda semana. Com mais presença, menos pressa e o compromisso de sempre com a minha própria escrita e a marca que eu quero deixar no (meu) mundo. Obrigada por estarem aqui, por lerem, por ficarem. É um prazer escrever para vocês.



