O quase
E todas as coisas suspensas no tempo
Na música “the 1”, Taylor Swift revisita um amor do passado e reflete sobre todas as possibilidades do que eles poderiam ter sido se as coisas tivessem acontecido de uma maneira diferente.
I persist and resist the temptation to ask you
If one thing had been different
Would everything be different today?
O que eu mais gosto na narrativa que Taylor traça nessa canção é justamente o sentimento de dúvida que permeia o coração e a mente de quem quase viveu algo.
Em um trecho do refrão, ela questiona: “But we were something, don't you think so?”, buscando a validação — ou melhor, a confirmação — da outra parte de que o que eles viveram foi, de fato, real. Se aquilo existiu, mesmo que não tenha ido para frente. Se eles eram algo.
E quem nunca se pegou pensando a mesma coisa sobre os próprios quase? Eu já coleciono vários que me tiram o sono, e tenho apenas 23 anos. São tantas perguntas sem respostas: Como se comprova aquilo que só existe na memória? Como tornar palpável o que é abstrato? Como dar nome a algo que nunca se concretizou? Existe definição para o inexplicável?
Em 2022, eu fiquei obcecada pelo conceito de multiverso após assistir o filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once), dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert. Mesmo sendo uma grande fã de ficção científica, o que mais me encantou no longa-metragem foi a maneira sensível e inteligente como a temática foi moldada ao redor dos conflitos essencialmente humanos.
A protagonista Evelyn, atolada em contas e numa vida que parece pequena demais para seus sonhos, é arrancada da rotina quando descobre que cada escolha descartada gerou uma nova versão de si. Evelyn pula de linha do tempo em linha do tempo, tentando consertar o caos, mas o que realmente a assombra é perceber que toda conquista carrega o preço de incontáveis “quases” enterrados, das inúmeras escolhas que ela não fez.
Existe um sentimento de luto em meio a tudo isso. Luto pelo caminho que não escolhemos, pelo emprego que não aceitamos, pela pessoa que não ligou de volta. Cada “e se” é um micro-velório silencioso: guardamos flores invisíveis numa estante interna e seguimos, fingindo que não ouvimos aquele eco bater nas paredes da memória.
Quando o apresentador Jô Soares voltou ao seu programa no dia 3 de novembro de 2014, logo após o falecimento do filho Rafael (Rafinha), ele contou que certa vez, ao irem juntos a uma livraria, o filho escolheu vários livros para levar. Diante da sugestão do pai para escolher apenas alguns, ele respondeu: “Então não quero nenhum. Eu prefiro não escolher. Porque escolher é perder sempre.”
Penso com frequência sobre essa frase. O Rafinha tinha toda razão: De fato, toda escolha é também uma renúncia — e é nessa renúncia que nascem os nossos “quases”. Aquilo que deixamos para trás, que não levamos conosco, seja por qualquer motivo que for. E às vezes, realizar uma escolha é tão assustador que ficamos em um estado de inação, temendo pela inevitável perda de algo que isso significa.
Roland Barthes dizia que o amor, quando acaba, deixa o sujeito enamorado suspenso em um estado de “quase discurso”. Ele quer falar, mas não há mais o outro para escutar. Fica apenas o pensamento, girando em torno do que não foi dito, do que foi demais, ou do que faltou.
Os “quases” são isso também: reticências emocionais. E é curioso como, mesmo diante de vidas tão cheias de demandas concretas, somos ainda atravessados por essas ausências sutis — como se a alma tivesse memória própria, alheia ao tempo cronológico.
A psicanalista Maria Rita Kehl escreve que o sofrimento psíquico, muitas vezes, nasce daquilo que não chegou a acontecer. O trauma pode estar mais no que não houve do que naquilo que foi vivido. E talvez por isso o “quase” incomode tanto — ele nunca se resolve. Não tem ponto final, nem chance de elaboração. Fica ali, espreitando, como um livro que a gente parou na metade, mas insiste em deixar na cabeceira.
A beleza nisso tudo é que somos capazes de reconhecer uns nos outros os afetos que não chegaram a florescer, os amores que não disseram a que vieram, as versões de nós que não se cumpriram. A vida raramente entrega respostas claras: Ela se insinua nos desvios, se revela nas lacunas.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, fala sobre como nossa cultura atual rejeita o negativo, o vago, o não-produtivo. E o “quase” é exatamente isso: improdutivo aos olhos do mundo, mas intensamente fértil dentro da gente.
Gosto de pensar que os “quases” são como sementes que não germinaram — e tudo bem. Não precisam ser arrancados. Só precisam de espaço para descansar. Acolher os caminhos não trilhados como parte da nossa paisagem interna. Como disse Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
E as coisas que não tem nome também são poderosas.
No fim das contas, talvez os “quases” não sejam feridas abertas, mas costuras visíveis daquilo que nos formou. Não deram certo, não seguiram, não se realizaram — e mesmo assim, nos marcaram com mais força do que muitas certezas.
E se tudo isso — os quase-amores, os quase-começos, os quase-eus — também forem parte essencial do que somos?
Não é preciso insistir em preencher todos os espaços. Há força em deixar alguns deles abertos, como janelas. Para que entre o ar. Para que exista movimento. Para que algo que não sabemos ainda o nome possa, um dia, passar por ali.
Na canção Oração ao Tempo, Caetano Veloso escreveu:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei, nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo
Há algo profundamente verdadeiro nesse verso — como se o tempo, ao passar, apagasse os contornos do que nunca se tornou presente. O que não se viveu escapa, dissolve, e talvez nunca tenha existido fora da memória de quem sentiu. Mas isso não o torna menos real. Apenas mais etéreo.
Talvez os “quases” sejam como sombras que só existem porque houve luz em algum momento. E mesmo que passem despercebidos aos olhos do mundo, ainda nos habitam. Não é preciso que eles durem — basta que nos tenham tocado.
Assim, carregamos o que foi, o que não foi, e o que quase foi, como parte indissociável do que somos. E se, um dia, tudo isso sair do ciclo do tempo, talvez a gente não seja mesmo mais — mas, enquanto for,que seja inteiro. Até nos pedaços faltantes.
Deixo como indicação “Oração ao Tempo” na voz da estrondosa Maria Bethânia, que deu vida à letra de Caetano com uma interpretação potente, imensa e sensível — tudo em todo lugar e ao mesmo tempo:




Só textão, amiga! Me admiro pela forma como você escreve. Talvez os quase’s nos assombrem para sempre — e tudo bem, até porque não podemos controlar tudo. Amei a reflexão!
Incrível como uma escolha simples pode mudar toda a nossa trajetória, e no final sempre somos assombrados pelos fantasmas do que quase fomos. Belíssimo texto