O romance morreu?
O paradoxo da Geração Z
Na última edição da Viveiro, escrevi um textinho despretensioso e brega para fazer jus ao momento apaixonado no qual me encontro (você pode conferi-lo aqui). Imagine a minha surpresa quando as múltiplas notificações começaram a chegar. Assim, como quem não quer nada, ele se tornou um dos meus conteúdos mais visualizados desde o início da newsletter, logo em seus primeiros dias no ar. Claro que dentro das devidas — e pequenas — proporções, mas, ainda assim, fiquei verdadeiramente surpresa com esse resultado.
A minha escrita aqui não é voltada para nenhum objetivo que envolva métricas, sucesso, fama ou qualquer coisa do tipo. Mas o que me despertou essa curiosidade sincera foi tentar desvendar qual foi o “elemento X” que encantou as pessoas, em especial, neste texto. Como uma boa jornalista, fui investigar no meu próprio repertório: dos meus cinco textos mais lidos, quatro falam, de alguma maneira — direta ou indiretamente — sobre amor.
Oh.
Ai de mim, que sou romântica.
Achei essa constatação especialmente intrigante ao levar em consideração que, segundo as estatísticas de público da minha newsletter, a maioria dos meus leitores pertence à Geração Z. Sim, a mesma geração que supostamente não quer mais saber de se relacionar fora das telas. Pesquisas apontam que jovens dessa geração estão adiando relacionamentos, fazendo menos sexo e priorizando as trocas online aos vínculos afetivos no “mundo real”.
A pandemia de Covid-19 reconfigurou de forma profunda a maneira como nos relacionamos com o outro e com o mundo. Uma análise da CNN Brasil aponta que o período alterou perspectivas individuais, intensificou a introspecção e impactou diretamente o comportamento social, tornando as relações mais cautelosas e, em muitos casos, mais frágeis. Ao mesmo tempo, dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a solidão se tornou um problema de saúde pública global, com impactos diretos na mortalidade de pessoas.
Podemos cruzar essas informações com o fato de que, no Brasil, existem 39% mais pessoas de 18 a 24 anos relatando queixas de saúde mental quando comparadas à faixa etária de 55 a 64 anos, segundo o relatório do Estado Mental do Mundo, que mostra que os jovens foram um dos grupos mais afetados pelos efeitos emocionais do isolamento durante a pandemia, com aumento de ansiedade, insegurança e dificuldades de socialização.
Em contrapartida, a “economia do amor” nunca esteve tão aquecida (calma, não é exatamente isso que você está pensando). O mercado literário, por exemplo, vem sendo amplamente dominado por gêneros como romance contemporâneo, dark romance, fantasia e, sobretudo, a romantasia — um híbrido que combina narrativas românticas com universos fantásticos e que, segundo o Estadão, tem mobilizado especialmente leitores jovens, capazes de consumir livros extensos em poucos dias, impulsionar as vendas do setor e lotar eventos como a Bienal do Livro.

Esse movimento não acontece isoladamente. Numa pesquisa deste ano divulgada pelo próprio TikTok, as comunidades digitais como o BookTok aparecem em local de destaque e têm desempenhado um papel central na reconfiguração da relação com a leitura, influenciando diretamente o comportamento de consumo e impulsionando títulos românticos ao topo das listas. Os efeitos já aparecem nos números, que apontam que o varejo de livros no Brasil registrou crescimento de dois dígitos, aquecendo o mercado editorial e confirmando a força dessa demanda, especialmente pelo público jovem.
Muitos desses títulos inclusive ultrapassaram o campo literário e migraram para o audiovisual. A indústria do entretenimento tem recorrido cada vez mais a livros — especialmente romances e fantasias — como matéria-prima para séries e filmes, adaptando grandes fenômenos das páginas para as telas. Uma curadoria da Folha de S.Paulo destacou a sequência de estreias recentes baseadas em obras literárias, de clássicos revisitados como O Morro dos Ventos Uivantes a adaptações contemporâneas como Uma Segunda Chance, romance da Collen Hoover.

A lógica é clara: histórias que já mobilizam leitores jovens a irem às livrarias chegam ao cinema com uma base de público consolidada e fiel, com alto potencial de engajamento e lucro. No centro da maioria dessas narrativas, o amor continua sendo um dos principais motores dramáticos.
Podemos entender então que, mesmo que a vivência do amor esteja sendo adiada ou reformulada por essa geração, o interesse por ele no âmbito imaginário e narrativo não apenas persiste, como se fortalece mais a cada ano.
Diante desse cenário, eu me questiono: Será que o meu nichado público de quase 200 pessoas representa uma pequena resistência romântica? Ou será que, na verdade, a Geração Z não é avessa à paixão, apenas está mais disposta a consumi-la do que vivenciá-la na prática?
Que mistério.

Eu não tenho uma resposta para a pergunta-título desse texto, mas acho que vale a reflexão: Se antes o amor era vivido com mais espontaneidade — ainda que com todos os seus riscos — hoje ele parece ser deslocado para territórios mais seguros, controlados e previsíveis. A ficção oferece aquilo que a realidade nem sempre garante: coerência, reciprocidade e desfecho.
Nos livros, nas séries, nas adaptações, o amor ainda pode ser absoluto, intenso e, principalmente, perfeitamente romantizado. Na vida real ele exige negociação, vulnerabilidade e uma disposição para o erro que nem sempre estamos prontos para sustentar.
Se posso contribuir com os meus cinco centavos de opinião para o tema — adoro essa expressão, roubei da minha melhor amiga. Te amo, Lu! — eu acho que a Geração Z não necessariamente deixou de ser romântica, bem pelo contrário: Talvez ela seja tão profundamente apegada a um romantismo lúdico, encontrando no imaginário um espaço mais confortável do que na prática, que hesita na hora de materializar o amor para não ter que lidar com a frustração que, cedo ou tarde, bate na porta de quem muito projeta as suas expectativas e fantasias no outro.
Talvez a minha pergunta precise ser reformulada: Não é se o romance morreu, mas em que condições ele ainda consegue existir e ser cultivado por um público afetado desde cedo por um paradoxo cruel: de um lado, a ilusão de ser visto e ouvido por muita gente causada pela hiperconectividade online, e do outro, os efeitos mentais e emocionais que advém da falta de conexões reais à longo prazo.
Para aqueles tão curiosos (ou românticos) quanto eu, segue a lista de todos os textos sobre amor e relacionamentos que já rolaram por aqui:


